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Encontros com o “Leão” 
Hemingway


Ernest Hemingway, homem do mundo, visto por um repórter brasileiro, que o acompanhou através da vida, por meio de seus textos — artigos, livros, ensaios — e agora o exibe por uma angulação nova. Trata-se de “Sete Encontros com o Leão”, do escritor e jornalista campineiro Eustáquio Gomes, que será lançado pela Editora Brasiliense em São Paulo, em dezembro. O autor foge do estilo convencional de biografias e descreve a vida de Hemingway, com destaque à sua personalidade contraditória, sob a forma de reportagens. Ele vai buscar as articularidades do escritor norte-americano, colocando-se como personagens que de uma forma ou de outra conviveram com Hemingway durante sua existência.

O livro, de 112 páginas, faz parte da coleção “Encanto Radical”, da Brasiliense, que já publicou biografias de Camus, Dostoievsky e Nietzche. Ele recebeu o convite para biografar um autor que tivesse ido ao extremo de sua vocação e decidiu-se por Hemingway. “Eu o escolhi por uma razão pessoal. Porque o acho tremendamente humano e também porque ele está muito próximo da cultura latina. Existem escritores estrangeiros, como Gorki — um russo muito mais brasileiro que Machado de Assis, por exemplo — cuja literatura está mais próxima da realidade do Brasil que a de vários autores nacionais. Hemingway é um deles.”

Sete Encontros com o Leão” traz sete capítulos — reportagens —, cujos títulos quase sempre têm uma conotação zoológica. “O estilo de Hemingway era quase animal. Ele era sensível e estúpido ao mesmo tempo; ia de um extremo ao outro.” No primeiro tópico, intitulado “O Urso de Carpintaria”, o autor se coloca como um dos boêmios estrangeiros do Closerie des Lilas, reduto de artistas expatriados na margem esquerda do Sena, em Paris, para melhor observar Hemingway, aos 25 anos, tentando burilar o seu estilo, que depois influenciaria grande número de escritores do Século XX, “mais talvez que o próprio James Joyce, que foi outro vetor”.

Eustáquio Gomes — travestido de personagens como garçons caçadores — acompanha Hemingway pelo mundo, passando pela Espanha — onde o escritor norte-americano escreveria sua primeira grande obra, “O Sol Também se Levanta” —, por Key West, cidade dos Estados Unidos, onde produziu “Adeus as Armas”, cristalizando sua fama e transformando-se em grande escritor trágico dos EUA aos 30 anos de idade. Mas é no quarto capítulo, de “O Caçador e Sua Caça”, que o jornalista realça acontecimentos que revelam um Hemingway alienado com os problemas sociais do seu país, saindo para uma caçada no Quênia no pior período da depressão econômica americana. Autor de “Por Quem os Sinos Dobram”, mau jornalista, um homem azarado e que não sabia perder, o falso herói, casado quatro vezes, são outros aspectos tratados no livro. O último capítulo, “A morte do Leão”, retrata o Hemingway decadente, inclusive com problema mental, escrevendo cartas ao banco em que era correntista, nas quais somente a saudação inicial fazia sentido: “Um Hemingway que num momento de lucidez disse um não para a doença e num ato de resistência final se matou”.

O Estado de São Paulo — Terça, 30/11/82
Da sucursal de Campinas