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O paradoxo


Eustáquio Gomes



Era já tarde da noite quando descobri que não dormiria. Disse a minha mulher:

— Vou dar uma volta.

— A essa hora?

— Quem sabe tomando um pouco de ar, durmo.

Saí sob protestos, porque só um louco sairia a passeio numa hora daquelas. E ainda mais a pé. Mas foi o que fiz. Vesti-me, abri a porta, depois o portão, ganhei a rua. Deserta. Uma lua árabe, fina como fatia de salame, sorria acima de um edifício. Tomei a rua Erasmo Braga e comecei a descer a Andrade Neves. Só de vez em quando passava um carro ou outro.

A insônia tinha uma razão bem definida: um erro ortográfico. Sim, os leitores atentos deverão ter surpreendido esse erro em minha crônica anterior. Em vez do substantivo adjetivante mal, usei o adjetivo substantivante mau numa expressão que deveria dizer que eu fora mal-educado com alguém. Quer dizer, revelei-me um vernaculista mal-avisado e um mau cronista. E o diabo é que eu constatara o erro bem antes da publicação, mas não mais a tempo de corrigi-lo. Metrópole, embora distribuída no domingo, é impressa na noite de quinta para sexta-feira. E foi só na sexta que, tendo o erro aflorado do meu subconsciente, selei o destino daquela noite. Minha inquietação cresceu durante a tarde. Gemi:

— Isso vai me fazer perder o sono.

E quando alguém diz a si mesmo que vai perder o sono por uma razão qualquer, já o perdeu. Pensava nessa auto-indução ao infortúnio enquanto descia a avenida e vi, na altura da ponte sobre a linha férrea desativada, dois vultos que subiam em atitude bastante esquisita. Dobravam todas as placas de trânsito que encontravam e depois chutavam os postes de madeira até aluí-los de sua base. Eis os vândalos que nunca apanhamos, pensei, mas agora foram vistos por alguém que chamará a polícia.

Devem ter adivinhado minha bravata, pois logo um deles começou a acelerar o passo morro acima. Sem diminuir a marcha, voltou-se um instante e assobiou para que o outro se apressasse, no que foi prontamente atendido. Compreendi que corria risco e ensaiei uma trôpega volta sobre meus passos. Ainda não estava longe de casa. Mas, ou estavam mancomunados com outra dupla que justamente descia a avenida na direção oposta, ou o azar resolvera brincar comigo colocando-me perversamente entre dois fogos. Estava perto de ser encurralado.

Mesmo sabendo que me afastava cada vez mais do meu quarto, da minha cama e da calidez dos cobertores (o frio era cortante), enveredei pela rua Dr. João Arruda com o fim de escapar pela tangente e evitar o pior. Notei que vinham atrás de mim. Desci correndo a rua Cândido Gomide. Podia ouvir seus sapatos estalando na calçada enquanto me perseguiam. Notei que entoavam um refrão sacro, o que me pareceu pura ironia, pois era evidente que cantavam a minha sentença.

— Vou retornar à avenida, disse a mim mesmo cortando à direita. Talvez pensem que continuei em linha reta.

Eu corria e estava surpreso de que ainda tivesse forças. Não sei como cheguei aos baixos do viaduto da Barão de Itapura. Havia lá uma família dormindo sob um monturo de sacos de aniagem e uma confusão de papelões e cobertores velhos. Nesse momento um veículo apareceu em disparada, como se fugisse de uma caçada policial, derrapou no asfalto molhado (esqueci-me de dizer que tinha começado a chover) e bateu ruidosamente contra o paredão do viaduto. Pensei em me esconder entre os sem-teto, mas acordados pelo estrondo eles se puseram de pé e vi que não eram uma família, mas três homens com cara de poucos amigos. Um deles puxou um punhal e me formulou a seguinte questão:

— Chegou o seu fim, branquinho. Mas vou lhe dar uma chance. Estou disposto a poupar sua vida se adivinhar o que vou fazer. Matar ou soltar você? A resposta tem de corresponder à verdade. Se acertar, prometo deixar você ir. Caso contrário, está morto.

Ora, aquilo era o paradoxo que está no fim do romance O Mapa da Austrália, que se não me enganava fora escrito por mim em 1996 e publicado em 1998. Portanto, eu estava condenado a seguir o script. No romance, o personagem é morto. 

— Vai me matar, respondi.

O sujeito riu: — Tem razão, mas infelizmente não vou poder soltar você. Se fizer isso sua resposta deixa de ser verdadeira e isto significa que você errou. E eu prometi soltar você somente se sua resposta correspondesse à verdade. Se a resposta fosse falsa, eu teria de matar você. 

— Vai me poupar, então.

— De jeito nenhum. Vou matar.

E ia fazer mesmo isso se minha mulher não me sacudisse e me fizesse sentar na cama. Demorei a compreender que estava no interior de um sonho, um sonho mau,  com vândalos que entoam cânticos e sem-teto; que constroem paradoxos.  Respirei fundo. Lembrei-me do erro ortográfico e tive piedade de mim mesmo. Melhor isso que pesadelos e paradoxos mortais, pensei. E tornei a dormir, desta vez sem sonhos.