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  Em nome de Deus
 

 Eustáquio Gomes



Hoje, depois de vencer minha aversão, resolvi escrever sobre coisas sérias. No entanto, para amenizar, começo com uns versos de amor que escrevi para uma mulher (a que está comigo desde sempre) a semana passada. Vejam se gostam.

Fantasias com você
numa banheira turca (ou 
dançando uma mazurca?):
quem suspeitaria
o fogo que devora
a mulher talibã
sob as dobras da burka?

Dirão que não é um poema de amor, mas à minha maneira é. Minha mulher é morena da cor do jambo e talvez tenha umas boas gotas de sangue índio. 

Logo saberão por que falo isso. E a burka, como sabem, é aquela vestimenta pesada que as mulheres afegãs eram obrigadas a usar da cabeça aos pés, até que seus opressores foram postos em debandada pelas bombas americanas — os mesmos fanáticos que acobertaram ou pactuaram com o assassino que mandou transfixar as duas torres do WTC, em Nova York, dizimando milhares de inocentes. 

As mulheres talibãs, além de não poderem mostrar o rosto, também não podiam trabalhar nem estudar. As viúvas eram condenadas ao abandono e à miséria. As meninas eram obrigadas a crescer na ignorância. E tudo isso em nome de Deus, como em nome de Deus foram transfixadas as torres do WTC. 

Desfeito o regime de terror no Afeganistão, onde essas coisas medievais aconteciam, as afegãs imediatamente saíram às ruas de rosto descoberto. Pelas fotos da revista que folheio, vejo que são rostos bonitos, cor de jambo, mulheres de olhos vivazes e sorriso aberto. Algumas pintaram as unhas pela primeira vez em anos, como crianças pubescentes, para saírem à luz do sol.

Outro dia vi um deputado na televisão, um demagogo em seu horário político, pregando arrogantemente contra “a agressão americana no Afeganistão”. No dia seguinte vi um cartaz pregado numa cantina, um cartaz que dizia a mesma coisa:  “Americanos fora do Afeganistão”. E fiquei pensando no que esses hipócritas fariam se estivessem no lugar, não digo do presidente americano, mas de qualquer americano. Será que iam defender o direito universal de transfixar seus edifícios neoliberais com aviões seqüestrados em nome de Deus ou do Terceiro Mundo? E o curioso é que são os mesmos que, em nome da justiça social, defendem ditadores que estão há 40 anos no poder e lá vão morrer, com seus excelentes índices na saúde e na educação, mas escassa liberdade. 

Talvez queiram também defender os terroristas bascos, por que não? Ali se pratica sistematicamente um terror didático, sangrento, impiedoso, em nome da autonomia política mas também de idéias raciais. Um dos teóricos atuais dos nacionalistas bascos, Txomin Apaiza, diz com todas as letras num de seus livros: 

"Relativamente aos bascos, parece que assim como o euskera nos singulariza de todos os idiomas falados pelos demais povos do mundo, quis o Criador distinguir-nos entre todas as raças com o Rh negativo de nosso sangue em uma proporção de 40%, proporção que não se encontra em nenhuma outra raça do mundo”.

“Um médico sábio (o dr. Miguel Etxeberri, um autêntico filho de bascos) encontrou em nosso sangue um singular elemento vivo, um tesouro que o Criador ofereceu aos bascos e que nos distingue de todas as demais raças do mundo, um sangue limpo sem o Rh positivo sangüíneo do macaco, sangue puro que nos diferencia de todas as demais raças, e que viemos herdando desde há 50.000 anos antes de Cristo”.

“Para não se contaminar com sangue de híbridos”, continua a impressionante obra, digna de Adolf Hitler, “essa foi a tremenda luta que manteve o sangue puro do Rh negativo dos bascos através de milênios, e se hoje em dia o encontramos nessa proporção tão alta, é por essa força dominante que nos deu o Criador”.

Deus, sangue, pureza, raça, religião, terror, seqüestros, transfixação de edifícios, morte: uma conjugação arbitrária, interessada e espantosa mas presente ainda nestes primeiros dias do dito terceiro milênio. Diante disso a burka até que tem seus encantos. Por baixo dela, ao menos, as mulheres afegãs mostram que a vida e a esperança nunca deixaram de pulsar.