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     Como e por que fui comunista
 

Eustáquio Gomes



De repente, num dia de abril que também era o dia da mentira, tornei-me comunista. No refeitório, quando eu disse que não tinha mais vontade de rezar por revolução nenhuma, descumprindo uma ordem que vinha do alto, Tarcisinho me indigitou:

— Comunista!

Aquilo soou esquisito, mas não me desagradou. Eu tinha ouvido dizer que os comunistas, embora fossem ateus e fechassem as igrejas, queriam justiça social. Havia uma certa nobreza naquilo e coragem também. E eu estava cansado de amealhar indulgências para escapar do inferno. Por isso, com raiva, resolvi chutar o balde para ver no que dava:

— Comunista, sim senhor! Pois eu sou comunista!

Pálido, Tarcisinho prometeu levar o assunto ao padre-reitor. Aquilo me deixou furioso. E quando ele gritou comigo e me chamou de “herege” e “comedor de criancinha”, não suportei a afronta e atirei-lhe uma colherada de feijão quente na cara. Os colegas da mesa me olharam com um misto de assombro e admiração.  Comunista! Pois sim, eu seria comunista! E ele, um dedo-duro, que levasse logo a informação ao padre-reitor. 

Ora, o padre-reitor tinha sido capelão do exército em Juiz de Fora. Por isso, no dia em que estourou a notícia do golpe militar, naquele primeiro de abril de 1964, ficara eufórico. Mandou reunir todo mundo na capela do colégio e, diante de 90 rostos atônitos, disse emocionado:

— O general Mourão Filho foi tocado pela mão de Deus. Neste momento ele marcha com suas tropas para o Rio de Janeiro. Vamos fazer uma vigília pelo sucesso da Revolução.

Cancelou as aulas daquele dia e mandou a gente se espalhar pelo pátio, em grupos de seis ou sete, com o terço na mão. Começamos a rezar com fervor e pavor, mais assustados que felizes, pois havia o fantasma da guerra civil. Enquanto isso o reitor mantinha-se encastelado em seu gabinete, de cara colada no rádio, os olhinhos acesos e os ouvidos atentos. Vez em quando vinha até o pátio para ver se as orações estavam bem encaminhadas. Aproveitava para nos pôr a par dos acontecimentos. O general tinha acabado de atravessar a ponte sobre o rio Paraibuna. Dali fizera um discurso candente que reboou por todo o país, fazendo tremer as pernas do governo comunista. Mesmo temerosos, nós nos torcíamos de comoção.

Mas depois enjoei. Aquele espetáculo todo me parecia um convite para nadar contra a corrente. Não queria mais participar de vigília nenhuma. Então, graças à provocação de Tarcisinho, me tornei comunista. De devoto da Virgem passei a discípulo de Stálin, um homem que sempre me metera medo. No pátio, minhas orelhas pegavam fogo. A notícia tinha se espalhado e já havia quem gritasse às minhas costas: “Comunista!”. De repente me vi sozinho. Descobri que ser comunista não era fácil. Exigia um ato de fé sobre-humana. Parecia que eu tinha mudado de religião e professava agora uma crença com um outro conjunto de profecias.

Quando soou a sineta, soube que a denúncia havia sido feita. Esperei com angústia a convocação do padre. Demorou. Achei que a demora fazia parte do castigo que me seria aplicado. Na verdade eu já ansiava por isso, pois estava de coração doído. Me lembrava das palavras da Virgem às pastorinhas de Fátima, “Rezem pelas conversão da Rússia”, e sentia que tinha traído a confiança dos céus. Que estúpido! Sem poder esperar mais, entrei de peito aberto no gabinete da autoridade. Recebeu-me sério, mas achei que ria por detrás da mão em concha:

— Que história é essa de comunista?
 E como eu não dissesse nada:

— Logo você, um dos prediletos de Nossa Senhora!

Aquilo me tocou. Caí num choro convulso. “Não sou mais, não sou mais”, eu disse, chorando aos borbotões. Embora no fundo de mim uma voz autônoma ainda teimasse em sussurrar, “que covardia, que covardia”, deixei de supetão a sala do padre e corri para a capela. Me ajoelhei diante da Virgem. Falei com ela como alguém fala a um amor injuriado:

— Deixei você, mas por pouco tempo. Voltei.
 Fiz as contas: eu tinha sido comunista do meio-dia às três da tarde, isto é, durante 180 minutos. Não era muito. Se preciso, estava disposto a carregar o estigma de meu passado marxista como outros carregam um talismã pagão no pescoço. Ela seria capaz de me perdoar? E ao voltar os olhos para cima, para o lindo rosto dela, que sempre me causava uma certa perturbação, achei que tinha uma expressão ligeiramente galhofeira, e que também lutava para segurar o riso.