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 O mestre-escola
 

Eustáquio Gomes



No dia de meu oitavo aniversário, ganhei de um padrinho certa quantia em dinheiro. Lembro-me que ele disse:

— Você é um menino esquisito. Não sei o que dar de presente a você. Então, tome isto e vá comprar o que bem entender.

Dava talvez para comprar uma caneta tinteiro, quem sabe uma camisa de flanela ou até mesmo um par de chuteiras. Mas eu era mesmo um menino esquisito.  Na loja do povoado, entre as tralhas recém-chegadas da cidade, havia um objeto pelo qual eu estava enamorado. Era um lampiãozinho a querosene de vidro bojudo, estopa branquinha e alça niquelada. Seu Juarez o tinha colocado no mostruário uma semana antes. Só havia um exemplar e eu teria sentido raiva de quem o comprasse.

Antes que isso acontecesse, fui até a loja e indaguei o preço. O dinheiro dava e até sobrava. Mas enquanto descia o lindo objeto do prego, seu Juarez vacilou um momento:

— Para quê você quer um lampião? — quis saber.

Aquilo, de certo modo, era brincar com fogo. Eu não passava de um menino. E havia muita palhoça por ali. Mas respondi com autoridade:

— Ora, para alumiar, seu Juarez.

Aquilo parece que o tranqüilizou. Eu tinha fama de gostar de ler. Em meu imaginário, creio que o pequeno lampião era um fetiche contra o reino das trevas. As trevas eram espessas no povoado, à noite. Não conhecíamos a eletricidade. E por trás da escuridão havia uma outra, a das trevas que acompanhavam as aparições, e ainda uma outra, mais densa, a da pobreza e ignorância dos caboclos. 

Mas agora meu lampiãozinho fazia jorrar golfadas de luz, clareando os cantos da casa, as saias das goiabeiras do quintal e o oco das árvores. Se calhasse, clareava até buraco de tatu. Por que não haveria de iluminar, como a lanterna de Diógenes, aquelas cabeças cujos neurônios estavam adormecidos?

Foi assim que aos oito anos, tomado de um entusiasmo louco e súbito, despertado por aquela luz que jorrava do meu lampião, eu me tornei mestre-escola por dois meses. As pessoas acharam graça, mas não criaram obstáculo. Cederam-me uma sala no grupo escolar. A notícia se espalhou. Os caboclos chegavam munidos de caderninhos baratos e lápis roídos, tomados de empréstimo aos filhos, vários dos quais eram meus colegas durante o dia.

— Noite, sinhô professorzinho.

— Boa noite. Vão entrando, por favor.

Eu via seriedade neles, mas creio que no fundo riam-se um pouco daquele garoto franzino que chegava compenetrado com o seu facho luminoso na mão direita e a cartilha na outra. Eu ajeitava o lampião sobre uma carteira central, para que todos recebessem a mesma cota de luz, e regulava a chama com circunspecção. Esses gestos iniciais eram o emblema da minha autoridade. 

Terminada a aula, eu fazia em companhia deles o caminho que me levava de volta a minha casa, onde a mãe me esperava com um prato de sopa quente. Eles me deixavam à porta, cumprimentavam minha mãe e continuavam em direção a seus casebres. Seus cadernos começaram a encher-se de garranchos. Um ou outro se orgulhava de já saber a taboada. E eu estava prestes a estabelecer uma reputação (e, quem sabe, um destino) quando um incidente aconteceu.

Certa noite chegou um aluno novo, um plantador de batatas, que se gabava de saber ler. Mas escrever, mesmo, ainda não. Nesse mesmo dia pediu-me que lhe sobrescritasse uma carta. Era uma carta que ele estava mandando para um antigo patrão dele, cobrando uma dívida. Mas acho mesmo que ele queria era me testar. Na altura do "Ilustríssimo", que eu escrevi em letra bem torneada, fui interpelado por uma careta de espanto e triunfo maligno.

— Mas ilustríssimo não é assim que se escreve — disse ele para a classe toda.

Pensei que ele se referisse à abreviatura da palavra, e corrigi a rota:

— Mas o senhor também pode escrever assim — Ilmo. — que fica mais fácil.

— Não, nada disso — continuou, aos berros.

— Ilustríssimo se escreve com l dobrado. Assim: Illustríssimo. O professor não sabia, é?

Foi inútil argumentar que o illustríssimo pertencia a uma grafia do passado, morta na revisão ortográfica de 1946. Que o quê! O professorzinho não sabia nada, sabia menos que seu filho Pedro, e estava tentando enrolar os coitados dos caboclos. Mas ele, sim, tinha algum conhecimento e não ia se deixar enrolar. Que pretensão, a minha!

O plantador de batatas não voltou mais, mas aquilo me desmoralizou. Foi como a cizânia espalhada no trigo ainda verde. Por mais que me esforçasse, não conseguia deixar de ver nos olhos dos caboclos a chispa da desconfiança. Em sonho, via a classe inteira rindo de mim, o menino do lampião que cometia solecismos e posava de mestre. Magoei-me. Relutava no momento de entrar na classe, já não regulava com tanto amor a chama do lampiãozinho. Numa palavra: perdi o gosto do ensino. 

Hoje, quando me perguntam por que me tornei jornalista e não professor, é esta a história que emerge do fundo de minhas conjeturas, que são sempre feitas de lembranças, nunca de reflexões. Não sou muito bom para pensar. Mas também a memória às vezes falha inexplicavelmente, como quando me pergunto qual foi o destino daquele pequeno lampião, se o aposentei, se o joguei fora, se partiu-se ao cair da mesa. Tinha curiosidade de ver se, como a lâmpada de Diógenes, ainda era capaz de iluminar qualquer coisa. Ando precisando.