Make your own free website on Tripod.com
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A maldição de Zoé
 

Eustáquio Gomes



Já naquela época, encantado com as letras, decidi abrir meu próprio negócio. Chamei a um canto meu fiel companheiro Bié, o retinto, e lhe disse:

— Bié, vamos fundar um jornal.

Ele quis saber como era. Expliquei com os elementos que conhecia. Todo mês, pela jardineira, chegava um pacote de jornais velhos para servir de papel de embrulho na lojeca de seu Juarez. Esses jornais ficavam sobre o balcão e eu tinha permissão para lê-los à vontade. Achava maravilhoso aquele mosaico de notícias, fotografias, intrigas e anúncios. Achava também que podia fazer igual ou melhor. Havia poesia naquilo. E via um destino acenando em minha direção. 

— Um jornal é uma coisa para ser lida — expliquei a Bié — mas também para ser vendida. Quem escreve conta, quem lê fica sabendo e quem vende lucra. É assim que funciona. 

No caso, nossa sociedade teria a seguinte divisão de trabalho: eu escreveria e Bié cuidaria da circulação, isto é, ofereceria O Farol de porta em porta. Nem podia ser diferente, pois Bié não havia entrado ainda para o rol dos alfabetizados, apesar de seu pai ter feito algumas tentativas nesse sentido. O jornal seria vendido ao preço de uma paçoquinha Amor, com a vantagem de poder ser convertido em espécie a qualquer momento, na justa medida. E eu já me sentia um novo Hearst, um Cidadão Kane, um Chateaubriand, embora estes fossem nomes completamente desconhecidos para mim. 

De amor, aliás, tratou o primeiro número, que também seria o último. Havia um poema em homenagem à lua (lindíssima naqueles dias), uma nota sobre dois seresteiros do povoado e um comentário sobre o time de futebol de meninos. Faltava uma boa fofoca, evidentemente, algo que fizesse o jornal entrar em combustão e ser comentado e disputado.

E quando, à tardinha, vi passar minha prima Zoé e seu namorado da época (com quem, por sinal, não se casaria), tive a intuição certeira de que ali havia notícia. Convoquei Bié com um assobio e seguimos os pombinhos pela trilha na relva. Caminharam devagar, de mãos dadas, até o cemitério. Havia ali umas árvores frondosas e acolhedoras. Creio que fui feliz na descrição da paisagem, mas é possível que tenha carregado nas tintas quanto ao resto. Em todo caso, achei assunto para duas páginas de letra caprichosamente desenhada. Bié, a quem li a coisa depois de escrita, arregalou os olhos:

— Patrãozinho é um poeta. Mas vai ter de confessar com o padre.

— Cê também, Bié — eu disse rindo.

Pela primeira vez a transgressão não me fazia ter medo do inferno. Era o destino batendo com a força da fatalidade. Zoé, ao tomar conhecimento do pasquim (teve a sorte de ser avisada cedo), aterrissou como uma águia em nossa oficina. Eu ainda estava ocupado em caligrafar a cópia número dois do nosso jornal. A primeira já tinha sido passada adiante. Ameaçando-nos com um cabo de vassoura, minha prima quis saber para quem.

— Para Luís, o balconista da loja.

— E quem mais?

— Ninguém.

Fomos os três, jungidos, à loja do Juarez. O balconista estava justamente lendo a notícia para uma platéia gozoza. Zoé entrou e arrancou O Farol das mãos do faroleiro, rasgando-o em tiras. E mandou que eu dissesse ali,  publicamente, que tinha inventado tudo. Pensei em invocar meu direito à liberdade de informação, conforme havia lido de um jornalista famoso, mas qualquer coisa atravessada em minha garganta me falava em empulhação. Depois, eu tinha avaliado mal as coisas e estava assustado e com pena do desespero de minha prima.

— É verdade, gente, é tudo invencionice minha — balbuciei.

Claro que, entre a notícia e o desmentido, as pessoas preferiram acreditar na primeira, pois já se disse que o que fica não é a notícia, menos ainda o desmentido da notícia, mas os mil modos como a notícia é lida e interpretada. Anos depois, numas férias do colégio, procurei Zoé. 

— Vim pedir desculpas, prima.

Ela sorriu, triste, sem o viço de antes: 

— Desculpar desculpo. Mas você me faz um favor: um dia escreve num jornal de verdade falando bem de mim. 

Prometi e contei a ela que, no colégio, os padres me haviam encarregado de fundar e dirigir um jornalzinho piedoso. Circulava só entre os internos. Se pudesse ver o futuro, saberia que mais tarde seria colocado à frente de outros desafios semelhantes. Como se sabe, cheguei a firmar uma sólida reputação como fundador de periódicos: primeiro foi um noticioso para uma fábrica de pistões e bronzinas, depois um jornalzinho para os sócios de um clube de serviços e, finalmente, um boletim dedicado aos fatos e feitos de nossa alegre sociedade. Receio que seja praga da Zoé.