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Histórias do rei Dadá


Eustáquio Gomes


 

Aos 51 anos, o ex-jogador diz que Dadá
Maravilha nunca perde a alegria, mas
admite que Dario José dos Santos anda triste



Em sua casa no bairro do Bonfim, em Campinas, ele passa horas revendo velhas imagens suas correndo em diagonal pelo campo, saltando com os zagueiros na área, fazendo um gol depois de outro. Pelas suas contas, foram 926 em 22 anos de carreira, o que faz dele o maior artilheiro do mundo, depois de Pelé. Está no Guiness por manter até o hoje o récorde mundial de dez gols numa só partida.

Personagem de si mesmo, reivindica a patente de inventor das coreografias no futebol e ninguém como ele cunhou frases capazes de perdurar tanto tempo na memória do povo. Alto, desengonçado, era uma espécie de herói positivo que num aspecto — o da alegria do ofício — lembrava Garrincha, embora sem as pernas tortas e a habilidade, mas também sem o álcool e com muito maior velocidade. Só bebe água. E jura que um dia viu um disco voador.

Embora tenha sido um dos jogadores mais cobiçados de sua época (jogou de 1965 até o final de 1986), não ficou rico com o futebol. "Se jogasse hoje", afirma, "seria mais valorizado que o Ronaldinho".

Você passou por 16 times, além da Seleção brasileira. Não ganhou dinheiro com as transações?

Não. Antigamente o jogador era escravo da lei. Para ganhar os 15% sobre a transferência era preciso ter no mínimo 30 meses de clube. Time por onde eu passava era campeão, então todo ano havia gente comprando meu passe para ser campeão também. Claro que eu nunca completava os 30 meses necessários. Só duas vezes isso aconteceu: quando fui do Atlético Mineiro para o Flamengo e do Sport Recife para o Inter de Porto Alegre. Por isso não fiquei rico. Então até hoje preciso correr atrás para viver.

Você vive de quê, hoje?

Dou palestras de motivação em escolas e escrevo uma coluna semanal no jornal O Estado de Minas. Ainda sou um homem muito procurado pelo exemplo que eu dei. As pessoas me param na rua para pedir autógrafo. Também pudera, eu fui o inventor de tudo. Fui eu quem inventou as coreografias, o marketing pessoal no futebol, esse modo de falar de si mesmo na terceira pessoa. Os estudantes gostam de me ouvir, porque eu tenho o que dizer. Como ser feliz na vida, como ser vitorioso, como ter paciência, essas coisas. Para um homem que teve a infância que tive, acho que fui iluminado por Deus.

Como foi a sua infância?

Sinceramente, eu não gosto de falar da minha infância. Mas como ela pode servir de exemplo, incentivo ou bálsamo para muitos, eu falo. Bom, eu fui interno dos cinco aos 19 anos no Serviço de Assistência ao Menor, em Quintino, no Rio de Janeiro. Eu fugia para assaltar e roubar. Eu era um cara muito revoltado.

Revoltado por quê?

Aos cinco anos, minha mãe morreu. Um dia eu vi um fogaréu no meio da rua e era minha mãe. Ela tinha ensopado o corpo com querozene e tacado fogo. Quando eu vi aquilo corri na direção dela e quis me jogar em cima, chorando. Ela era maluca, mas tinha instinto maternal e me empurrou para longe, para me proteger. Caí numa valeta de esgoto cheia de cocô e fiquei vendo ela morrer. Meu pai era analfabeto, estava trabalhando. A cena ainda está na minha cabeça, cristalina, parece que estou vendo. Ela ficou pequenininha, coitadinha.

Você acha que por ter crescido sem mãe...

Veja, eu cresci sem carinho nenhum. A primeira vez que ganhei um abraço eu tinha 18 anos. O primeiro beijo eu só ganhei aos 19. Fiz sexo pela primeira vez com 22 anos. Um dia, num assalto que eu fiz com um comparsa, ele levou um tiro e eu fiquei jurado de morte. Resolvi parar. Minha sorte era gostar de futebol, mas eu era um perna-de-pau. Eu pedia para jogar e me diziam: "Ah, negão, você é ruim demais". Então eu fiz mais um assalto e comprei uma bola, porque o dono da bola sempre joga. Mas eu era mesmo horrível de ruim. Só que tinha um impulsão fabulosa de tanto saltar muro e subir em árvore para correr da polícia. Fui pro quartel e eles me botavam lá na frente pra saltar e fazer gols. Fiz tanto gol no quartel que fui parar no Campo Grande. Tentei a sorte no Flamengo, Botafogo, Vasco, Portuguesa, Olaria, e em todos fui dispensado por ruindade. Aí voltei pro Campo Grande e desandei a fazer gol. Tinha 21 anos quando meu nome começou a ser falado e o Atlético Mineiro me levou. 

Dizem que você foi convocado pelo presidente Médici quando a Seleção se preparava para a Copa do Mundo de 1970. É verdade?

Quem dizia isso era o João Saldanha, depois que saiu do cargo de técnico da Seleção em 1969. A verdade é que naquele ano eu fiz 69 gols em pouco mais de 40 jogos. Nunca em tempo algum ninguém fez isso nem vai fazer, de modo que eu era o maior goleador do mundo naquela época. Pode juntar os gols do Ronaldinho e do Romário que não dá isso. Todo mundo pedindo a minha convocação e o Saldanha dizendo: "Meu time é de toque de bola, não tem lugar pra perna-de-pau". E eu engolindo sapo. Eu achava um desrespeito mas ficava quieto. Um dia a Seleção marcou um jogo-treino com o Atlético e eu disse em público: "Vou arrebentar, vou acabar com essa seleçãozinha de merda". Fiz dois gols e ganhamos de 2 a 1. No fim do jogo foram perguntar ao Médici: "E aí, presidente, o que achou do jogo"?. E o Médici: "Mas esse rapaz é extraordinário. Por que ele não está na Seleção?". Aí foram ao João Saldanha e o Saldanha disse: "Eu escalo a Seleção, o presidente escala o Ministério dele". Foi o bastante para o Médici mandar o Havelange, presidente da CBD na época, sacar o homem fora. O Havelange tentou argumentar mas não deu. O Saldanha foi sacado e entrou o Zagalo. 

Você foi convocado, mas nem assim foi titular.

Cheguei a fazer jogos-treinos como titular, sempre fazendo muitos gols. Quatro contra a seleção de Manaus, três contra a seleção de Minas. Quando o Zagalo me tirou do time, eu disse: "Pô, Zagalo, nem Jesus Cristo". Mas a verdade é na minha posição havia dois jogadores melhores que eu, o Pelé e o Tostão, embora eu estivesse numa fase melhor que a deles. E aquele era um time que depois de engrenado não perdeu mais pra ninguém. Aliás, minto: só perdia para o time reserva. Cada treino a gente metia três ou quatro neles, eu deitava e rolava. Um dia eu disse pro Zagalo: "Chefe, já que não estamos jogando, arruma aí uns times do México pra gente não perder a forma". Aí vieram o Necaxa, o América, o Guadalajara. A gente metia cinco, seis. Eu era o cara mais falado do México, o pessoal de lá não entendia por que eu estava fora do time.

Depois de tripudiar da Seleção, você teve problemas ao ser convocado?

No começo, sim, o pessoal me olhava de lado. Mas aos poucos eles foram me aceitando, vendo como eu era, acabaram entendendo que eu não tinha culpa. Também fui ajudado pelos três mineiros que estavam lá, o Piazza, o Fontana e o Tostão. 

Você se reconciliou com o Saldanha?

Tentei fazer isso duas vezes. Em 79, eu estava no Payssandu e o Botafogo do Rio foi jogar em Belém. O Saldanha foi comentar o jogo. Cruzei com ele num barzinho, cumprimentei e ele cuspiu de lado. A outra vez foi em 86, eu já morava em Campinas e o Saldanha tinha vindo dar uma palestra. Eu estava num bar no Largo do Rosário quando ele entrou. Eu me levantei e fui ao encontro dele. Ele virou a cara e aí me deu raiva. Então eu disse: "Ah, João, vai à merda, eu não preciso de você". Nunca mais conversamos. Quando ele morreu, em 1990, o pessoal da imprensa começou a me ligar pedindo uma opinião sobre ele. Eu falei: "Olha, gente, se eu não falei quando ele era vivo, agora que está morto que Deus o tenha". Mas no fundo eu não tenho raiva dele, não.

Em sua opinião, a Seleção de 70 foi a melhor da história?

Os mais antigos dizem que a de 50 foi melhor, apesar de ter perdido o último jogo. Outros dizem que foi a de 58. Agora, a imprensa mundial diz que foi a de 70. Eu tenho dúvidas. A verdade é que as três foram magníficas. E eu ainda coloco uma quarta, a de 82, que foi brilhante. 

E a de 94, foi medíocre?

Eu diria que não foi brilhante. Mas ganhou, né. 

Afora saltar muros e subir em árvores, qual o segredo de você fazer tantos gols?

Eu descobri o segredo de fazer gols ainda no Campo Grande, num dia em que a gente ia jogar com o Fluminense. A gente achava que ia perder de 12, porque no nosso próprio campo já tínhamos perdido de seis. Logo que entramos eu vi aquela mulherada pelada nas piscinas das Laranjeiras. No vestiário, faltando pouco pro jogo, eu não conseguia parar de pensar naquelas mulheres. Então, para dominar a ansiedade, fiz uma coisa que vai chocar algumas pessoas. Eu me masturbei. No campo senti que estava levinho e corria como o vento. O resultado foi que ganhamos de 2 a 1 com dois gols meus. Então criei o hábito, passei a fazer sempre, antes de todo jogo. 

Funcionava mesmo?

Ninguém me pegava. Eu entrava como um azougue, caía pela esquerda e saía em diagonal. Saltava acima da trave. Mas, claro, não podia haver excesso. Um dia, deu zebra.  Foi no campeonato brasileiro de 1970. O Atlético estava concentrado para um jogo de vida ou morte contra o Inter de Porto Alegre, no Beira Rio. Para fazer o tempo passar, eu, o Lola e o Vaguinho resolvemos fazer um campeonato de — como é que diz mesmo a Bíblia? — onanismo. O Vaguinho mandou ver uma, o Lola duas e eu três. No campo, deu tudo errado. A bola passava e eu não estava nem aí. Levamos uma piaba. No turno seguinte o Inter foi a Minas e aí me mantive moderado.  Uma só e ponto. Enfiei quatro gols.

Você é religioso?

Até dezembro do ano passado eu fui católico, mas agora não sou nada. Eu fui comungar na Catedral aqui de Campinas e o padre não quis me dar a hóstia. Perguntei por quê e ele me disse que não podia, pois eu não tinha me confessado. Respondi que tinha me confessado durante a consagração, mas ele continuou distribuindo hóstias e me ignorando. Então pensei: "Vou esperar para ver, vou ficar aqui". A igreja lotada, ele distribuindo hóstias para os outros e nada para mim. Quando ele viu que eu não saía mesmo, resolveu me dar a hóstia de qualquer jeito e eu planejei: "Vou dar uma mordida na mão dele". Avancei com o maxilar aberto, mas ele retirou a mão. Foi a sorte dele. Acabei comungando com raiva. Foi aí que eu deixei de ser católico. Agora só acredito em Deus.

Apesar de tudo você se mantém um otimista?

Sempre achei o seguinte: eu posso estar pisando na lama, mas tenho que olhar para as estrelas. Deus ajuda a quem o ajuda a ajudar. Eu sempre fiz a minha parte. Por que eu fui artilheiro? Porque treinava muito o cabeceio. Eram 200, 300 cabeçadas por dia. Tinha que treinar piques? Então eram 100 piques. Tinha que ter resistência? Dava 40 voltas no campo para aquecer. Observando bem, aprendi a pegar o pé de apoio do goleiro, a usar o vácuo do beque, a fazer alavanca, a dar impulsão com a ponta dos pés para cortar o vento. Descobri que prendendo a respiração eu ficava mais leve que o ar. Essas coisas não estão em manual nenhum. Aprendi sozinho. 

Por que você criou o Dadá? Não estava satisfeito com o Dario?

Vou dizer: é porque não tinha espaço pra mim. Só se falava em Pelé. E na minha época eu fazia mais gols que o Pelé. Eu não queria ser comparado ao Pelé, porque também entendo que ele foi o maior da história. Mas devia ter espaço pra todo mundo e não tinha. Então eu disse: "Ah, é? Ninguém quer me dar valor? Então eu vou ser louco". Daí as coreografias, as manchetes, a frases que até hoje o povo repete. Depois, eu criei o Dadá para poder falar bem de mim na terceira pessoa, para não parecer presunçoso. Uma coisa é dizer "eu sou o bom", outra coisa é afirmar "o Dadá é o bom". 

O Dario, na intimidade, conversa com o Dadá?

Conversa, sim. Eu procuro muito o Dadá quando estou triste, arrasado. Mas mais do que tudo eu gosto de ver o Dadá. Eu tenho as fitas dos gols do Dadá, às vezes ponho pra rodar. Eu morro de rir. O Dadá é doido, é bobo da corte, é um cara feliz. Para ele, ter um milhão ou um centavo no bolso dá no mesmo. 

Você se considera um predestinado?

Eu fui um homem de muita sorte até o ano em que vi um disco voador.

Você viu um disco voador? 

Parece brincadeira, mas é a pura verdade, juro pelos meus filhos. Foi na Bahia, em 1981. Na época eu morava com minha família num condomínio fechado em Itapuã. Eram duas e meia da madrugada e o disco veio e parou em cima da gente. Ficou uns três minutos, saiu em disparada e veio novamente, com aquelas luzes todas acesas. Eu e minha mulher ficamos apavorados. Depois disso nada mais deu certo na minha vida, até meu casamento acabou, poxa, depois de 26 anos. Às vezes penso que estou precisando ver o disco voador de novo para ele me devolver o que eu tinha, porque ele me tirou tudo. Até grandes amigos eu perdi, eu próprio fiquei meio desorientado. Eu saio por aí e fico duas horas andando que nem um doido. Peguei esse gosto de andar, porque eu adoro ver gente, observar o mundo. Eu vou a shopping só pra ver gente.

Estar descasado é a razão da sua tristeza?

É, de repente eu olho pro meu filho e vejo ele assim-assim e sei que é saudades da mãe. Você pode dar ouro em pó para os seus filhos, mas não pode substituir a mãe. Eu não reclamo por causa de dinheiro, até que estou bem. Reclamo é por causa de amor. Meus filhos me dizem: "Pai, você é o Dadá e não faz nada para usufruir do seu cartaz". Então vejo aí os bad boys como o Mário Sérgio, o Edmundo, o Romário e o Renato Gaúcho deitando e rolando depois de não sei quantas presepadas, e dou razão a meus filhos. Agora, Deus está vendo isso. Então digo a eles: "Bom, mas pelo menos vocês têm a honra de ser filho do Dadá, um cara decente". 

O Brasil vai ganhar a próxima Copa do Mundo?

Se o Zagalo reformular os pontos de vista dele, pode ser que sim. 

(Publicada na Revista do Correio, 1997)