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Primeiro capítulo de
O diário jubilaico de Sidraque Matias,
próximo romance de Eustáquio Gomes


*
 


A cápsula do tempo


 


Hoje enterramos a urna com as cartas ao futuro.

O reitor à frente, marchamos por entre as árvores do campus, contornamos o teatro de arena e entramos na Biblioteca Central com um ar de soldados da história. 

Já esperavam por nós, no saguão, a bibliotecária-chefe, dois pedreiros e o vidreiro que laboriosamente construiu a caixa de vidro. Estavam também lá dois fotógrafos e uma equipe da tevê local. Depois chegou um público pequeno, em sua maioria estudantes. Este ano as aulas começaram mais cedo. 

A urna, em forma de caixa ou aquário quadrado, repousava no saguão à beira de um buraco de um metro de largura por outro de profundidade. As paredes da cova tinham sido cimentadas e revestidas com cortiça de alto a baixo para prevenir os movimentos de expansão e retração do vidro. Dentro, a cápsula dormiria (isto é, viajaria sob o solo, conforme a bela expressão do reitor em seu discurso) por sete décadas e meia até ser despertada por pessoas desconhecidas que provavelmente nem nasceram ainda. No pilar central, rente ao qual foi cavada a cova, mandei afixar uma placa de metal com os dizeres:

CÁPSULA DO TEMPO
LACRADA EM 14 DE MARÇO DE 1985
PELO MAGNÍFICO REITOR
PROF. DR. AUGUSTO PONTES ALVARENGA
PARA SER ABERTA EM 2060,
ANO DO CENTENÁRIO DA
UNIVERSIDADE DE COLINAS

No princípio a cerimônia pareceu ligeiramente surreal por sua semelhança com um enterro de verdade, no qual o orador, por chalaça, fizesse um discurso de batismo de navio. Levado pela intuição, o Dr. Alvarenga adiantou-se e falou de improviso, desprezando as folhas que trazia no bolso do casaco. De fato a ocasião não era para formalidades. Invocou os pósteros que abrirão a caixa daqui a setenta e cinco anos, passou habilmente aos pioneiros da instituição, lembrou a obra de Alvarenga pai, o fundador, para terminar com os pés bem plantados no presente, onde se dá o rol de suas próprias realizações. 

A certa altura repetiu um dos bordões favoritos do pai, aquele que diz que sua missão não consistia em plantar couves mas árvores frondosas – perobas, jacarandás, cedros –, não uma ou duas ou três, mas uma floresta inteira de grandes árvores, “uma hiléia do saber”. Isto da hiléia, de tão replicado no curso dos anos, tornou-se uma espécie de anedota que atravessou gerações de estudantes para finalmente se fixar como um símbolo, uma alcunha que depois de perder o sarcasmo original passou a ter uso corrente em assembléias e até em reuniões do Conselho. 

Mais para o fim o reitor teve a delicadeza de mencionar meu nome, “Sidraque Matias, o autor da idéia de mandar uma mala-posta ao futuro”, concedendo-me o privilégio de iniciar os preparativos da lacração. Com a ajuda do vidreiro depositei na urna, tirando-as de um saco, as quase mil cartas que haviam chegado de todas as regiões do País, enviadas por almas sonhadoras ou místicas que leram a notícia nos jornais e esperavam encontrar no futuro interlocutores mais gentis que seus contemporâneos. Sobre essa pirâmide de papel acrescentei um filme com cenas e paisagens do campus, a monografia histórica da instituição, escrita por mim, e um exemplar da Gazeta de Colinas, o jornal da cidade. Quando tudo já estava acomodado no interior da cápsula e o vidreiro lidava com a tampa, o reitor lembrou-se do discurso não lido, “um momento”, disse, e deixou cair na caixa duas folhas dobradas.

A pequena assistência aplaudiu, com exceção dos jornalistas, cuja isenção não podia ser traduzida por falta de entusiasmo. O vidreiro encaixou a tampa e lacrou-a. Depois, por um diminuto orifício, com a ajuda de uma bomba de vácuo, sugou todo o ar que havia lá dentro e injetou argônio para criar uma atmosfera inóspita à proliferação de bactérias. Em seguida o orifício também foi lacrado. Por um trançado de correias a urna foi baixada ao fundo. Correram a laje de concreto. O resto do serviço os pedreiros fizeram a sós, quando todos, exceto o câmera da tevê (a repórter ensaiava sua fala no gramado úmido), já haviam se retirado.

Antes, porém, ainda houve tempo para gracejos. O Dr. Alvarenga pilheriou: “Faço votos de que daqui a três quartos de século a gente se encontre neste mesmo lugar para abrir a urna que hoje lacramos. Combinado?”.

Houve um murmúrio de concordância derrisória.

Coincidência ou não, o saguão foi varrido por uma lufada de ar frio que levantou abas e farpelas. Isso deu aos risos uma ressonância funesta. Quando saímos, o vento e o chuvisco fustigavam os flamboiãs, mas na barra do horizonte ainda havia sol.